Síndrome do Falso Dono

Existe uma metamorfose que, embora silenciosa, é profundamente agressiva. Ela acomete certos indivíduos no exato momento em que assumem a persona da chefia. O fenômeno é melancólico: como em um retrocesso à era das monarquias, o sujeito, postado atrás de uma mesa de compensado, passa a governar com punhos de aço. Por um truque da mente, passa a crer em um poder místico emanado do cargo, e não do seu caráter.
Essa transformação não apenas revela o que estava oculto, mas expõe uma
fragilidade latente: o medo crônico de não ser respeitado por sua essência. Assim, sua autoridade não brota da competência, mas do temor que consegue instilar. É a personificação da amarga tese de Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Porém, é possível romper esse ciclo vicioso. Basta que esse personagem desperte para uma verdade mais favorável: a confiança é um alicerce muito mais perene e eficaz do que o pânico. Talvez o maior entrave seja o conforto narcisista no
autoritarismo de quem poderia fazer o bem, mas insiste em negligenciar uma
ferramenta fundamental de que todos dispõem: o senso de humanidade.
No fim das contas, essa armadura de autoritarismo é pesada demais para quem deseja, no fundo, apenas ser respeitado. O despertar dessa metamorfose não vem de um manual de boas condutas, mas de um choque de realidade: entender que o respeito é um laço que se constrói, não uma ordem que se impõe. Enquanto o cargo for usado para esconder a insegurança, o gabinete será um exílio solitário e o ambiente ao redor, um vago deserto de ideias.
Afinal, como bem lembra o antigo provérbio: quando o tabuleiro é guardado, o rei e o peão voltam para a mesma caixa, e lá ninguém pergunta qual era o tamanho da sua mesa. Fica a reflexão: alguém que depende do medo para ser ouvido está, de fato, capacitado para a função, ou é apenas um refém da própria insegurança?
Iduarez Cassio da Veiga
Policial Militar e Criminólogo
Pós-graduado em Psicanálise e
Neurociência da Aprendizagem

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