Morrer de Saudade?

Dizem que a saudade não é nada, mas às vezes ela é tudo.
Manifesta-se como um espaço vazio que insiste em habitar nosso interior, como uma
estrada deserta que se aprofunda na escuridão. Desprovida de matéria, corpo ou voz, é
aquela ausência que se faz sentir como presença.
Saudade é o silêncio que grita. É a lembrança que retorna como vento a atravessar janelas
fechadas, trazendo perfumes de tempos que já se foram. Ela deixa cicatrizes: provas de
que nem tudo será completamente esquecido.
Cultivamos a saudade porque ela é a persistência do que foi essencial. Surge ao recordar
uma lembrança, ao olhar uma foto ou ao reviver um gesto no cotidiano. Sentir falta é
natural; não senti-la seria uma utopia árida.
Como uma raposa que chega sorrateira, assim é a saudade: aparece sem aviso, mas nunca
sem motivo. Somos seres capazes de manter, por longo tempo, lembranças no
pré-consciente, essas informações que repousam fora da consciência, mas que despertam
ao menor toque da mente, trazendo à tona a saudade adormecida.
No entanto, quando a saudade se prolonga em excesso, pode se aproximar da melancolia:
um estado mais profundo e paralisante, marcado por uma tristeza difusa. A melancolia não
é apenas saudade; é a saudade que perdeu a esperança e se fechou para o presente.
Talvez o segredo não esteja em ocultar a saudade, mas em aceitá-la. Desse modo, ela será
apenas uma cicatriz; poderemos olhar para ela não como uma ferida aberta, mas como o
sinal de que tudo foi real. E, acima de tudo, seguirmos firmes na caminhada que ainda
precisa ser percorrida.
Portanto, que neste final de ciclo, ao tranquilizarmos a alma para reconhecer ganhos e
perdas, possamos transformar cada saudade aceita em direção. Que a essência que
buscamos não seja o conforto de um lar esquecido; que deixemos para trás o que nos
aprisiona ao passado e abramos as janelas para a luz que nos guiará pelo novo caminho.
Sempre à frente.
Com o olhar sempre à frente, desejo aos leitores um Feliz Natal e um Ano Novo repleto de
recomeços e esperança.
Iduarez Cassio da Veiga
Policial Militar e Criminólogo

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