Demolição de salão comunitário na Linha Canga Quebrada gera impasse judicial e divide comunidade
Publicado em: 21 de janeiro de 2026
A demolição do salão comunitário da Capela São Brás, na Linha Canga Quebrada, interior de Fontoura Xavier, segue repercutindo e provocando forte comoção entre moradores, ao mesmo tempo em que levanta debates sobre segurança, uso do espaço e decisões administrativas da Igreja. O caso envolve uma liminar judicial em vigor, questionamentos sobre a venda do terreno e versões divergentes entre membros da comunidade e a paróquia responsável.
O espaço, construído ao longo de mais de duas décadas com o esforço coletivo da população local, era utilizado para celebrações religiosas, eventos sociais, reuniões comunitárias e velórios. Após a demolição completa da edificação, o local hoje apresenta apenas escombros, enquanto o processo judicial segue em andamento.
Comunidade aponta descumprimento de decisão judicial
Moradores da Linha Canga Quebrada afirmam que a demolição ocorreu mesmo após decisão judicial que determinava a preservação do salão. A ação foi movida por uma moradora antiga da localidade, que ingressou com processo contra a Mitra Diocesana de Cruz Alta, alegando que a doação do terreno, formalizada em 2011, estava condicionada à manutenção do pavilhão comunitário já existente no local.
No dia 7 de janeiro de 2026, a Justiça concedeu tutela provisória de urgência determinando a interrupção imediata de qualquer ato de demolição, desmanche ou alteração estrutural do prédio, sob pena de multa diária. Na decisão, a magistrada destacou que a destruição do imóvel poderia causar dano irreversível e comprometer o resultado útil do processo.
Apesar da liminar, moradores relatam que máquinas estiveram no local e que o salão foi completamente demolido. Até o momento, não há confirmação oficial sobre quem executou a demolição nem sobre quem autorizou a intervenção. As circunstâncias deverão ser apuradas judicialmente.
Valor histórico, afetivo e comunitário
Para a comunidade, a perda do salão representa mais do que a queda de uma estrutura física. O espaço era considerado um símbolo da história local e da união dos moradores.
Maria Helena, integrante do Clube de Mães da comunidade, relata que a construção do salão foi fruto de anos de trabalho coletivo. Segundo ela, tudo começou em uma antiga escolinha, onde mulheres da comunidade se reuniam para realizar trabalhos artesanais e arrecadar recursos.
“Nosso objetivo sempre foi ter um salão próprio, porque era a única coisa que a nossa comunidade tinha. Trabalhamos muito, fizemos arrecadações, pedimos ajuda, passamos por dificuldades. Foi a comunidade inteira unida”, relembra.
Ela afirma que a construção contou com apoio do município, de lideranças locais e de moradores, que contribuíram financeiramente ou com trabalho. Placas com nomes de colaboradores chegaram a ser afixadas no local como forma de reconhecimento.
Doação à Igreja e contestação da venda
Segundo relatos de moradores, em determinado momento o salão e o terreno teriam sido doados à Mitra Diocesana como condição para a realização das missas no local. A decisão, conforme afirmam, teria sido tomada de boa-fé, com base na confiança na instituição religiosa.
A comunidade também questiona a forma como a venda do imóvel foi conduzida. De acordo com os moradores, a decisão teria sido tomada em reunião com baixa participação, sem o consentimento da maioria.
“Duas ou três pessoas não representam uma comunidade inteira”, afirma Maria Helena, destacando que o espaço era utilizado por mais de 200 famílias, independentemente de religião. “Católicos, evangélicos, espíritas, jovens. Todos colaboravam e usavam o salão quando precisavam.”
Além disso, moradores relatam que o salão era utilizado para velórios, especialmente pela proximidade com o cemitério local, e que agora a comunidade não sabe onde poderá se despedir de seus entes queridos.
Igreja aponta risco à segurança e falta de participação
Do outro lado, a paróquia responsável afirma que a decisão de vender o terreno foi motivada por questões de segurança e viabilidade. Segundo o pároco, as obras de duplicação da BR-386 alteraram significativamente o entorno do salão, reduzindo o espaço disponível e eliminando áreas antes utilizadas como estacionamento.
De acordo com o religioso, informações repassadas por representantes da concessionária da rodovia indicaram que a nova pista passaria a cerca de um metro e meio da edificação, sem que o terreno estivesse dentro da área de indenização. A proximidade com a estrada, somada ao intenso fluxo de veículos, teria tornado o local inadequado para a realização de eventos.
“Como pároco, não posso autorizar festas ou promoções em um local onde há risco de acidente. Antes havia espaço e segurança. Hoje isso não existe mais”, afirmou.
Outro fator citado foi a queda na participação da comunidade nas celebrações religiosas. Segundo ele, nos últimos anos o número de fiéis diminuiu consideravelmente, levando à suspensão das missas e ao fechamento do salão, que passou a gerar custos de manutenção.
Decisão administrativa e uso dos recursos
Conforme a paróquia, a venda do terreno foi autorizada pela cúria diocesana após análise do caso. O valor negociado teria sido de aproximadamente R$ 40 mil, considerado o maior lance recebido. Segundo o pároco, a possibilidade de outra proposta foi divulgada previamente, mas não houve manifestação.
A Igreja afirma que os recursos obtidos com a venda seriam destinados à própria comunidade, com o objetivo de futuramente viabilizar a construção de uma nova igreja em local mais seguro.
O religioso também esclarece que regras sobre repasse de parte da arrecadação de festas e eventos são diretrizes diocesanas e se aplicam a todas as comunidades, não sendo uma prática exclusiva da Linha Canga Quebrada.
Desmontagem, demolição e investigação
Sobre a retirada da estrutura, a paróquia afirma que iniciou um processo de desmontagem para reaproveitamento de materiais, como telhado e janelas, em uma futura construção. A comunidade, no entanto, sustenta que houve demolição completa, em desacordo com a decisão judicial vigente.
O processo segue tramitando na Justiça, com audiência de conciliação marcada para o dia 24 de fevereiro, autorizada a participação de membros da comunidade. A expectativa é de que o encontro possa esclarecer responsabilidades e buscar uma solução para o impasse.
Enquanto isso, moradores lamentam a perda do espaço e aguardam respostas. Entre escombros e lembranças, a Linha Canga Quebrada vive um momento de divisão, dor e incerteza sobre o futuro de um local que marcou gerações.
Espaço aberto para manifestações
A redação d’O Clic reforça que permanece à disposição para ouvir e registrar o posicionamento de qualquer pessoa ou instituição envolvida no caso que tenha interesse em se manifestar sobre os fatos, garantindo espaço imparcial e pleno direito de esclarecimento à comunidade.
Escrito por: O Clic



